Crítica: A Cabana | A humanização da Trindade

Baseado no best-seller de William P. Young, a adaptação de “A Cabana” demorou muitos anos para finalmente sair do papel. Apesar de tanto tempo na geladeira, não poderia ter sido lançado num momento melhor. Independentemente de sua crença, Deus sempre é um assunto enigmatístico e que causa curiosidade quanto a sua representação e por isso o filme é um convite a todos que queiram ver como Deus foi apresentando e representado nessa obra.

É interessante observar que esse filme traz uma proposta de mensagem diferenciada de outros filmes do gênero. Enquanto em outros filmes temos uma mensagem direta do que Deus quer e é, nesse filme temos uma linha de acontecimentos que vai revelando os anseios e desejos de Deus para com o protagonista, o humanizando de forma simples, mas muito bonita. E quando digo “humanizar” não é no sentido de denegrir a forma divina, mas sim da proximidade entre o Criador e o criado.

Na trama, conhecemos a família Phillips, que em uma viagem de fim de semana conhece a maior dor de suas vidas ao perderem a caçula Missy, que após horas de busca é dada como morta. Após isso, seu pai MackenzieMackPhillips (Sam Worthington) se desconecta de tudo e todos, deixando sua grande tristeza o invadir e consumi-lo cada dia mais. Tudo isso muda quando ele recebe em sua casa um convite para passar o final de semana na cabana onde encontraram as pistas de Missy e o que mais o incomoda é que essa carta estava assinada por Deus.

Um dos elementos na narrativa do livro era a narração de uma testemunha sobre todo o evento e isso se manteve na adaptação do filme o que traz um tom mais dramático quando uma perspectiva de fora conta sobre os acontecimentos de Mack na cabana. Quando somos apresentados ao novo cenário do filme, com mais “vida”, somos presenteados com três personificações de Deus: Jesus, Espirito Santo e o Próprio Deus. Nesse mundo Mack é convidado a “tratar” sua dor e aos poucos, se relacionando com cada parte da trindade, ele vai percebendo seu papel na família, em sua própria vida e nos planos de Deus.

Durante todo o filme o drama é fortemente estampado no telespectador com a trilha sonora que consegue imprimir a dor do protagonista. Temos leves e engraçados momentos que quebram toda a parte da tragédia e que são sabiamente dosados e equilibrados. Infelizmente, como outras obras baseadas em livros, o filme faz apenas seu dever de casa e cria uma resenha em cima da obra original, deixando toda a complexidade da trama de cura de Mack para trás. Mas como a proposta aqui é uma adaptação para um curto período de filme, o serviço foi entregue.

Existem deslizes no roteiro que deixam o filme sem muita profundidade e a direção dificulta um pouco a interpretação dos atores, mas o esforço deles faz com que cada personagem mereça seu lugar ao sol. Destaque da vez, vai para a maravilhosa Octavia Spencer que interpreta Deus, ou como é chamado no filme, Papa.

Se existem deslizes, por outro lado existem o “Ás de Ouro”. O desenvolvimento da relação pessoal entre Deus e Mack é particularmente linda. A possibilidade de vivenciar, conversar e se alimentar ao lado de Deus, de forma tão simples e próxima é um dos pontos mais interessantes do filme. Sarayu (Sumire Matsubara) que é a representação do Espirito Santo é a responsável por mostrar mais do interior de Mack e que o ensina que até a raiz morta, pode dar lugar a um novo florescer. Jesus (Avraham Aviv Alush) se mostra mais amigo de Mack por ter vivido como homem e entender os dilemas da dor e por fim, Papa ou Deus que pacientemente aguarda Mack em seu aprendizado, para que ele entenda que Deus nunca o abandonou.

A Cabana não deve ser visto como um filme drama para autoajuda ou como referência teológica. Seus pontos bíblicos podem, em algumas vezes, serem questionados, mas ensinam muito aos que sabem extrair aprendizado. No fim de tudo, vale muito a pena passar seu fim de semana na Cabana.

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